Há poucos anos, apostar exigia sair de casa. Hoje, basta abrir um aplicativo. Em segundos, qualquer pessoa pode apostar em uma partida de futebol, girar uma roleta virtual ou tentar a sorte em jogos como o popular “Tigrinho”. Para muitos, trata-se apenas de entretenimento. Para outros, o que começa como diversão acaba se transformando em um problema capaz de afetar finanças, relacionamentos, saúde mental e projetos de vida.
Uma forma de compreender melhor esse fenômeno é conhecer histórias reais. Quando observamos a trajetória de pessoas que enfrentaram dificuldades com apostas, podemos identificar sinais que muitas vezes passam despercebidos em nós mesmos. Em psicologia, essa identificação costuma favorecer a reflexão e o reconhecimento precoce de comportamentos de risco.
1. Gabriely Sabino: R$ 25 mil em dívidas e uma semana desaparecida
Em 2024, a enfermeira Gabriely Sabino, de Piracicaba (SP), ganhou destaque nacional após desaparecer por uma semana. Posteriormente, revelou que havia acumulado aproximadamente R$ 25 mil em dívidas relacionadas ao “Jogo do Tigrinho”. Segundo seu relato, o comportamento se tornou um vício, levando-a a recorrer a empréstimos e a desenvolver ansiedade e depressão.
Fonte: UOL Notícias (26/06/2024).
2. Assíria Macêdo: patrimônio perdido e casamento destruído
A designer de cílios Assíria Macêdo, de Fortaleza, relatou em 2026 que perdeu praticamente todo o patrimônio familiar após anos apostando em jogos online. Segundo seu depoimento, acumulou cerca de R$ 50 mil em dívidas, enfrentou crises de ansiedade, insônia e viu seu casamento terminar em consequência da compulsão pelas apostas.
Fonte: CNN Brasil (17/04/2026).
3. O dentista que perdeu R$ 400 mil
Em reportagem publicada pelo UOL e repercutida nacionalmente, um dentista de 45 anos relatou ter acumulado mais de R$ 400 mil em dívidas. Ele afirmou ter utilizado recursos da previdência dos próprios filhos para continuar apostando e acabou sendo interditado judicialmente pela família para proteger o patrimônio familiar.
Fonte: UOL, BNews e outros veículos (2025).
4. A família que vendeu imóveis para pagar dívidas
No caso de Assíria Macêdo, os pais venderam imóveis para ajudar a quitar dívidas acumuladas pelas apostas. O relato ilustra como o problema frequentemente ultrapassa o indivíduo e atinge toda a rede familiar.
Fonte: CNN Brasil.
5. A profissional que passou a desviar o próprio salário
Gabriely relatou que parte significativa do dinheiro que recebia em seus trabalhos era destinada diretamente aos jogos. O pagamento que deveria cobrir despesas do mês era consumido pelas apostas na tentativa de recuperar perdas anteriores.
Fonte: UOL Notícias.
6. Pessoas que recorrem a agiotas
O caso de Gabriely também chamou atenção porque envolveu empréstimos obtidos com agiotas. A escalada do endividamento é um padrão frequentemente observado em quadros de jogo compulsivo.
Fonte: UOL Notícias.
7. Pessoas que perderam a capacidade de parar
Assíria descreveu que apostava qualquer valor que entrasse em sua conta, independentemente da quantia. Seu relato ilustra uma característica central da ludopatia: a perda progressiva do controle sobre o comportamento de apostar.
Fonte: CNN Brasil.
8. Trabalhadores que comprometem toda a renda mensal
Diversas reportagens brasileiras vêm relatando casos de pessoas que utilizam salários inteiros, limites de cartão de crédito e empréstimos para apostar. Em muitos casos, a expectativa de recuperar perdas anteriores acaba ampliando ainda mais os prejuízos.
Fonte: UOL e reportagens especiais sobre apostas online.
9. Casos associados a sofrimento psicológico intenso
Ansiedade, depressão, insônia, culpa e vergonha aparecem repetidamente nos relatos de pessoas que desenvolveram dependência em apostas. Tanto Gabriely quanto Assíria relataram importantes repercussões emocionais associadas ao problema.
Fonte: UOL e CNN Brasil.
10. Casos com ideação suicida e mortes sob investigação
Nos últimos anos, reportagens, estudos e relatos de profissionais que atuam com dependência em apostas passaram a registrar aumento de casos envolvendo ideação suicida entre pessoas gravemente endividadas. Há também notícias de mortes e suicídios cujas famílias relacionaram o sofrimento às perdas financeiras decorrentes das apostas. É fundamental compreender que o suicídio nunca possui uma causa única, mas o endividamento, a vergonha, o isolamento e o desespero podem funcionar como fatores de risco importantes.
O que existe em comum entre essas histórias?
Apesar das diferenças entre os casos, existe um padrão recorrente. Quase ninguém começa apostando grandes quantias. Muitas vezes tudo se inicia com pequenas apostas, um prêmio inesperado ou a influência de propagandas e influenciadores que exibem ganhos extraordinários.
Do ponto de vista psicológico, os cassinos online utilizam um mecanismo chamado reforço intermitente. O jogador não sabe quando virá a próxima recompensa. Essa imprevisibilidade aumenta o envolvimento emocional e favorece a permanência no comportamento, mesmo diante de perdas sucessivas.
Outro fenômeno comum é a chamada “perseguição das perdas”. A pessoa acredita que, com mais uma aposta, conseguirá recuperar o dinheiro perdido. Em vez de reduzir os prejuízos, acaba aprofundando-os.
O olhar da psicologia clínica
A dependência em jogos de azar, conhecida como ludopatia, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um transtorno relacionado ao comportamento aditivo. Não se trata simplesmente de falta de disciplina ou irresponsabilidade.
Por trás das apostas excessivas, frequentemente encontramos sofrimento emocional, dificuldades na regulação das emoções, impulsividade, busca de alívio para a ansiedade ou tentativas de compensar sentimentos dolorosos.
Uma reflexão final
As histórias apresentadas não pertencem apenas às manchetes dos jornais. Elas mostram como qualquer pessoa pode se tornar vulnerável quando se encontra diante de promessas de lucro fácil, acesso permanente ao jogo e momentos de fragilidade emocional.
Conhecer esses relatos não serve para julgar quem passou por eles. Serve para refletir. Afinal, quase todas essas pessoas acreditavam que tinham controle da situação até perceberem que o jogo já havia assumido o controle de suas vidas.
Quando as apostas passam a ocupar espaço excessivo nos pensamentos, nas finanças e nos relacionamentos, buscar ajuda psicológica pode ser um passo importante para interromper esse ciclo e reconstruir uma relação mais saudável consigo mesmo e com o próprio futuro.

