Quando a psicoterapia vira aconselhamento

Atualmente, cada vez mais pessoas procuram psicoterapia — e isso, por si só, já é um fenômeno importante. Há algumas décadas, buscar um psicólogo era quase sempre associado a quadros graves, a algo “errado demais” para ser dito em público. Hoje, não. A clínica passou a ser também um lugar de reflexão, elaboração e cuidado consigo mesmo. Em outras palavras, algo da cultura começou a reconhecer que sofrimento psíquico não é exceção; é condição humana.

Mas junto com esse movimento surgiu um equívoco silencioso. Muitas pessoas finalmente chegam ao consultório… e encontram aconselhamento.

O paciente chega com uma pergunta — sobre o casamento, sobre a carreira, sobre permanecer ou sair de um relacionamento, sobre como educar um filho, sobre uma decisão difícil — e o profissional entende que sua função é orientar a escolha. Ele escuta, pondera os prós e contras e, de forma mais ou menos explícita, passa a sugerir caminhos: “o melhor seria você se posicionar”, “acho que você deveria sair desse trabalho”, “você precisa impor limites”, “não vale mais a pena insistir nisso”.

À primeira vista isso parece cuidado. Parece até eficiência. O paciente sai com alívio imediato, com a sensação de ter encontrado alguém que sabe o que fazer. O psicólogo, por sua vez, sente que ajudou. Afinal, houve um problema e foi oferecida uma direção.

Só que aqui está o ponto central: aconselhamento resolve a situação objetiva, mas não trabalha o sujeito que vive a situação. A psicoterapia não se ocupa primordialmente da decisão concreta. Ela se ocupa da estrutura psíquica que faz com que aquela decisão seja sempre vivida da mesma maneira.

Uma pessoa pode perguntar se deve terminar o relacionamento. O aconselhamento vai tentar responder à pergunta. A psicoterapia tenta compreender por que, independentemente do parceiro, ela sempre chega ao mesmo tipo de vínculo, ao mesmo sofrimento, ao mesmo impasse emocional. O foco deixa de ser o que fazer e passa a ser quem é aquele que vive isso.

Quando o terapeuta aconselha, ele inevitavelmente ocupa um lugar: o de quem sabe. E quando isso acontece, o paciente passa a ocupar o lugar complementar — o de quem precisa ser guiado. Forma-se, então, uma dependência sutil. A decisão pode até funcionar naquela semana, naquele mês, mas o sujeito não se transforma. Ele apenas terceiriza o próprio critério.

O problema não é moral, é técnico

O aconselhamento pertence ao campo pedagógico, pastoral ou até mesmo amistoso. Amigos aconselham, pais aconselham, líderes aconselham. A psicoterapia, porém, não nasce para indicar o caminho correto, mas para ajudar o paciente a descobrir por que ele não consegue caminhar por si. Porque, em geral, o sofrimento psíquico não decorre da falta de informação. Ele decorre de conflitos internos.

A maioria dos pacientes já sabe racionalmente o que deveria fazer. A pessoa que permanece num relacionamento destrutivo, por exemplo, raramente ignora que está sofrendo. O que ela não entende é por que não consegue sair — ou por que, quando sai, retorna a algo semelhante. Se o terapeuta apenas aconselha a ruptura, ele atua no nível da decisão consciente, mas deixa intactas as forças inconscientes que organizam aquela repetição.

E é justamente aí que a psicoterapia começa

O trabalho clínico não oferece respostas prontas; ele constrói condições para que o próprio sujeito possa produzir uma resposta que seja verdadeiramente sua. Isso leva mais tempo, produz mais angústia e não gera alívio imediato, mas gera autonomia psíquica. A pessoa deixa de precisar de alguém que lhe diga o que fazer, porque passa a compreender o que nela a empurra sempre para os mesmos lugares. A psicoterapia não é um lugar onde alguém mais experiente pensa por você. É um lugar onde você finalmente pode começar a pensar e, sobretudo, a se reconhecer, sem precisar fugir de si mesmo. Por isso, aconselhar pode até aliviar. Mas elaborar transforma.

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