Transtorno bipolar ou transtorno depressivo?

O transtorno bipolar pertence ao campo dos transtornos do humor, mas sua lógica psicopatológica é muito diferente da depressão maior unipolar. Na depressão, o eixo central é um rebaixamento persistente da vitalidade psíquica: há uma redução global de energia, interesse e capacidade de investir no mundo. No transtorno bipolar, ao contrário, o problema não é apenas a queda do humor — é a instabilidade estrutural da regulação afetiva. O psiquismo oscila entre dois polos qualitativamente distintos: episódios depressivos e episódios de elevação patológica do humor (mania ou hipomania). Em termos clínicos, não se trata de uma depressão “mais intensa”, mas de uma organização do humor marcada por ciclos.

A desproporcionalidade de sentimentos

Na depressão maior, o paciente sofre uma espécie de estreitamento do campo existencial. O tempo psíquico fica lento, o futuro perde consistência simbólica e a experiência subjetiva tende à inibição: dificuldade de decidir, pensar, iniciar ações e até desejar. A culpa costuma ser central, frequentemente desproporcional ou sem objeto definido. A pessoa não apenas está triste; ela se percebe sem valor, sem potência e, muitas vezes, sem lugar no mundo. Já no transtorno bipolar, a depressão pode aparecer com aparência semelhante, mas ela não é o fenômeno fundamental — é apenas uma das fases. O quadro precisa ser compreendido longitudinalmente: a história do humor ao longo da vida vale mais do que o retrato momentâneo da consulta.

A fase maníaca ou hipomaníaca introduz um elemento decisivo para o diagnóstico diferencial. Nela, ocorre uma expansão patológica da energia psíquica. O sujeito dorme pouco sem sentir cansaço, fala mais rápido, inicia múltiplos projetos, aumenta gastos, envolve-se impulsivamente em relações ou decisões e apresenta sensação subjetiva de clareza mental e capacidade excepcional. Diferentemente da alegria saudável, não há apenas bem-estar: há perda de crítica. A pessoa não percebe sua alteração — quem percebe é o entorno. Muitas vezes, a procura por tratamento acontece somente quando a fase já produziu consequências concretas (dívidas, conflitos conjugais, demissões, comportamentos de risco).

Esse ponto é crucial para distinguir as duas condições: o paciente deprimido geralmente sofre dentro do episódio e pede ajuda; o paciente bipolar costuma sofrer depois do episódio expansivo. Durante a hipomania ou mania, ele frequentemente sente melhora, produtividade e até uma espécie de reencontro consigo mesmo. Isso gera um fenômeno clínico importante: muitos pacientes relatam que a fase de elevação parece a sua “verdadeira personalidade”, enquanto a depressão seria algo estranho. Na depressão unipolar ocorre o oposto — o paciente reconhece o estado depressivo como doença.

Outra diferença importante é a relação com o tratamento. Em depressão maior, antidepressivos tendem a produzir melhora progressiva. No transtorno bipolar, antidepressivos isolados podem piorar o quadro: podem precipitar hipomania, mania ou acelerar ciclos. Por isso o diagnóstico correto não é apenas descritivo, mas estratégico, pois determina uma lógica terapêutica distinta, baseada sobretudo em estabilizadores de humor. Um erro diagnóstico aqui não é apenas teórico; ele altera a evolução clínica.

Há também diferenças fenomenológicas sutis. Na depressão unipolar, a lentificação é homogênea: pensamento, motricidade e fala diminuem de forma coerente. No bipolar, mesmo na fase depressiva, podem aparecer traços atípicos — irritabilidade marcada, ansiedade intensa, agitação interna, alternância diária de humor ou piora abrupta ao entardecer. Além disso, a história frequentemente revela períodos passados de energia excessiva que o paciente não identificava como patológicos, descrevendo-os como fases de produtividade excepcional.

Sinteticamente, o que diferencia mais diretamente:

  • Depressão maior: apenas episódios de humor deprimido ao longo da vida.
  • Transtorno bipolar: existência atual ou passada de mania ou hipomania.
  • Depressão: inibição, culpa e perda de energia como núcleo.
  • Bipolar: alternância entre inibição e aceleração psíquica.
  • Depressão: melhora típica com antidepressivo isolado.
  • Bipolar: necessidade de estabilização do humor; antidepressivo isolado pode desorganizar.

Do ponto de vista clínico — algo muito relevante para a psicoterapia — o transtorno bipolar não é apenas uma intensidade maior de sofrimento, mas uma descontinuidade da experiência de si. O paciente frequentemente relata não reconhecer a própria biografia: há decisões tomadas em fases expansivas que não correspondem ao sujeito que emerge na fase depressiva. O trabalho terapêutico, portanto, não se limita a aliviar sintomas; envolve ajudar o paciente a construir continuidade narrativa entre estados afetivos muito discrepantes, além de desenvolver reconhecimento precoce de sinais de virada de humor.

Em resumo, enquanto a depressão maior é um transtorno de tonalidade afetiva persistentemente baixa, o transtorno bipolar é um transtorno de ritmo e regulação do humor. A pergunta diagnóstica central não é “quão deprimido ele está?”, mas sim: já houve um período de energia anormalmente aumentada, redução da necessidade de sono e aumento de impulsividade? Quando essa resposta é positiva, o quadro deixa de ser apenas depressivo e passa a exigir outra compreensão psicopatológica — e outra condução clínica.

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