Tempos tristes com vazio de Significado: reflexões à luz de Byung-Chul Han e Viktor Frankl

Nos tempos atuais, marcados por uma aparente abundância material e tecnológica, vivemos uma crise silenciosa, mas profunda: o vazio de significado. Enquanto a modernidade prometia um futuro repleto de liberdade e progresso, muitos indivíduos enfrentam uma sensação crescente de alienação, ansiedade e falta de propósito. Essa realidade é explorada com profundidade por dois pensadores fundamentais do século XXI: Byung-Chul Han e Viktor Frankl. Embora suas abordagens sejam distintas, ambos oferecem insights valiosos para compreendermos os tempos tristes que habitamos e como podemos encontrar sentido em meio ao caos.

A sociedade do cansaço e o vazio existencial: a perspectiva de Byung-Chul Han

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, é conhecido por sua crítica contundente à sociedade contemporânea. Em obras como A Sociedade do Cansaço e Psicopolítica , ele argumenta que vivemos em uma era dominada pela lógica neoliberal, onde o ser humano é reduzido a uma máquina de desempenho. Nesse contexto, o excesso de liberdade e escolhas não nos liberta, mas nos aprisiona em uma espiral de autoexploração e pressão constante.

Para Han, a sociedade atual é caracterizada pelo “cansaço”. Não se trata apenas de exaustão física, mas de um cansaço mental e emocional provocado pela sobrecarga de estímulos, demandas e expectativas. Vivemos em uma cultura do “positivismo”, onde tudo deve ser produtivo, otimizado e eficiente. O resultado é uma sensação de vazio existencial, pois o excesso de liberdade e a ausência de limites externos nos levam a internalizar a culpa e a responsabilidade por nossos fracassos. Como afirma Han, “somos vítimas de nós mesmos”.

Esse cenário cria uma espécie de “depressão coletiva”, onde as pessoas buscam incessantemente validação em likes, seguidores e conquistas materiais, mas nunca encontram satisfação duradoura. O vazio de significado surge porque, em uma sociedade que valoriza apenas o desempenho e o consumo, perdemos a conexão com aquilo que realmente importa: relações humanas autênticas, paixões genuínas e propósitos mais elevados.

Han alerta que, sem uma reflexão crítica sobre esses mecanismos, corremos o risco de perpetuar essa crise de sentido. Para ele, é necessário questionar os valores predominantes e buscar formas de resistir à lógica do desempenho incessante. Só assim poderemos recuperar nossa humanidade e encontrar caminhos para uma vida mais plena.

O sentido da vida em tempos de sofrimento: as lições de Viktor Frankl

Enquanto Byung-Chul Han analisa os males da modernidade, Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, oferece uma perspectiva diferente, mas complementar. Em sua obra-prima, Em Busca de Sentido , Frankl explora como o ser humano pode encontrar significado mesmo nas situações mais adversas.

Frankl desenvolveu a Logoterapia, uma abordagem terapêutica centrada na busca de sentido como força motriz da existência humana. Para ele, o sofrimento é inevitável, mas o que define nossa experiência não é o sofrimento em si, mas a maneira como respondemos a ele. Em outras palavras, mesmo em meio ao vazio e à dor, podemos encontrar propósito e significado.

Durante sua prisão nos campos de concentração, Frankl percebeu que aqueles que conseguiram sobreviver não eram necessariamente os mais fortes ou saudáveis, mas sim aqueles que mantinham alguma razão para viver: um ente querido a quem voltar, um projeto inacabado ou até mesmo a simples vontade de testemunhar o horror para contar ao mundo. Essa observação levou-o a concluir que “aquele que tem um ‘porquê’ para viver pode suportar quase qualquer ‘como’.”

Aplicando essa ideia aos tempos atuais, podemos dizer que o vazio de significado que assola tantas pessoas decorre, em grande parte, da ausência de um propósito claro. Assim como Han, Frankl critica a obsessão pela felicidade instantânea e pelo prazer imediato. Para ele, a felicidade não é um objetivo em si, mas uma consequência natural de viver uma vida com sentido. Quando buscamos algo maior do que nós mesmos, encontramos respostas para o vazio existencial.

Diálogo entre Han e Frankl: um caminho para o significado

Embora Byung-Chul Han e Viktor Frankl partam de contextos diferentes, suas ideias convergem em um ponto crucial: a importância de encontrar significado em nossas vidas. Han nos alerta sobre os perigos de uma sociedade obcecada pelo desempenho e pela acumulação de bens, enquanto Frankl nos ensina que o verdadeiro sentido da vida está além do conforto material e das convenções sociais.

Juntos, eles nos convidam a repensar nossas prioridades. Se, por um lado, precisamos resistir à lógica do desempenho infinito e à pressão por validação externa (à la Han), por outro, devemos cultivar a capacidade de enxergar sentido mesmo nas dificuldades e incertezas (à la Frankl). Isso implica reconhecer que o vazio de significado não é um destino inevitável, mas uma oportunidade para refletir sobre o que realmente importa.

Práticas como a meditação, a introspecção e o engajamento em causas maiores do que nós mesmos podem ajudar a preencher esse vazio. Além disso, investir em relacionamentos autênticos e em atividades que promovam bem-estar coletivo pode ser um antídoto poderoso contra a alienação moderna.

Conclusão: reconstruir o sentido em tempos de crise

Os tempos tristes que vivemos são, em grande parte, fruto de uma sociedade que valoriza o superficial e ignora o essencial. Byung-Chul Han e Viktor Frankl nos oferecem ferramentas valiosas para enfrentar essa realidade. Enquanto Han nos ajuda a identificar as armadilhas do sistema neoliberal e a importância de resistir à cultura do desempenho, Frankl nos lembra que o sentido da vida não está no que possuímos, mas no que fazemos com o que temos.

No final das contas, superar o vazio de significado exige coragem, reflexão e ação. É preciso olhar para dentro de nós mesmos e perguntar: qual é o meu propósito? O que dá sentido à minha existência? Ao respondermos essas questões com sinceridade, podemos transformar nossos tempos tristes em oportunidades para renovação e crescimento. Afinal, como disse Frankl, “o ser humano é capaz de viver sem prazer, mas não sem sentido.”

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